netoguimaraes' blog


a origem do noSurf

texto no medium


neste texto introduzirei o movimento NoSurf, suas origens e motivações. algo de grande importância para o momento em que vivemos mas ainda pouco falado.


mais um dia

imagine a seguinte cena: são 10 da manhã. você acordou às 8h30, mas ainda não fez nada. está se atualizando sobre o que está acontecendo ao redor do mundo, vendo os vídeos dos seus canais favoritos do youtube, rolando o feed do instagram e vendo os tweets que você perdeu enquanto dormia.

ops, são 11h horas, tem que fazer o almoço. você coloca aquele podcast engraçado e segue pra cozinha.

ao terminar de preparar o almoço, você volta pro youtube e coloca algo leve para assistir enquanto come. lava a louça enquanto escuta mais um podcast. sai de casa para fazer suas obrigações, ainda ouvindo o podcast. enquanto está no ônibus, escreve uns tweets sobre as amenidades do dia. enquanto está na aula, verifica suas notificações periodicamente, vai que alguém falou alguma coisa importante. ao chegar em casa depois de um dia cansativo, coloca o celular pra carregar e fica rolando a timeline do twitter até dar sono. e o ciclo se repete.

fim da cena.

essa é a vida comum de qualquer pessoa da minha geração, com uma margem de erro de alguns anos pra cima ou pra baixo. e não há nada de necessariamente errado com ela, se ela for realmente pensada e planejada para ser assim: um grande consumo de informações sem tempo para respiro nem para um processamento decente da mesma. o grande problema é que este comportamento não é necessariamente consciente. boa parte desse tempo estamos executando o que os NoSurfers entendem como Mindless Browsing (Navegação inconsciente, em tradução livre). Mas o que diabos é esse movimento NoSurf?

em linhas gerais, é um movimento que prega a eliminação desta Navegação Inconsciente. não o fim de forma ditatorial, como se fossem uma casta superior - apesar de existirem os chatos que se acham donos do mundo por terem excluídos todas as suas redes sociais. o movimento tem o objetivo de reunir e incentivar as pessoas a fim de melhorar certos aspectos que a navegação inconsciente acaba atingindo: autoestima, ansiedade, depressão, autoconhecimento e etc.

mas como isso surgiu? porque alguém ficaria com uma pulga atrás da orelha com um tópico tão cotidiano como o acesso à informação na internet?

As redes sociais

o ser humano é social, isso é um fato.

por isso que uma de nossas punições mais comuns é tirar a liberdade (prisão). desde sempre gostamos de interagir uns com os outros. seja ao redor de uma fogueira enquanto assamos a carne do animal que acabamos de caçar ou através de um like na foto do seu broder na academia. sempre foi assim, seres humanos discutindo, se elogiando e se influenciando. as redes sociais são só uma representação do que sempre fizemos.

mas sem sombra de dúvidas, elas são uma das principais causadoras do Mindless Browsing. e digo mais: foi a indústria das redes sociais que criou o conceito de navegação inconsciente. e aqui explico para o leitor: todas as redes são empresas. 

empresas são instituições que tem como principal objetivo arrecadar dinheiro, seja pra pagar seus funcionários, manter-se funcionando ou fazer seus donos lucrarem. essa é a premissa básica do capitalismo, onde todos precisam de dinheiro pra viver e quanto mais dinheiro melhor. o grande plot desta história é que as empresas por trás das redes ganham dinheiro através de cliques e pelo tempo que as pessoas passam em suas páginas ou aplicativos, basicamente. ou seja, quanto mais tempo o usuário passa no app, mais receita é gerada. logo, o pensamento mais básico dessas empresas é o de criar mecanismos para fazer com que cada vez mais os usuários passem mais tempo por ali. e obviamente, não se pode forçar ninguém a ficar num app, portanto essas travas devem ser psicológicas.

então, ao longo dos anos, foram sendo desenvolvidas estratégias psicológicas para que cada vez mais as pessoas sentissem vontade de permanecer nos respectivos apps e sites. estratégias de incentivo para criadores de conteúdos também aparecem aí no meio. afinal, quanto mais gente criando conteúdo diverso, mais público é atingido e mais gente quer ver o que tá acontecendo.

criou-se um monstro

a bola de neve foi girando e com os anos, temos um cenário infalível: vídeos de gatinhos, discussões sobre os temas mais atuais, gente se fudendo de maneira engraçada, gente bonita e rica falando sobre suas vidas, notícias sobre a guerra na síria e estudos científicos sobre obesidade nos estados unidos. tudo isso nos estimulando o dia inteiro, varando madrugadas. e o mais sádico: sem fim. sempre dá pra rolar mais um pouquinho pra baixo. as timelines foram sendo desenvolvidas de maneira a você nunca chegar no final. e se chegar, ter algum outro mecanismo para buscar conteúdos novos.

tantos estímulos acabam causando a sensação de falsa produtividade, onde você sente que está consumindo tudo aquilo, que está fazendo varias coisas ao mesmo tempo, mas na verdade essas informações acabam passando despercebidas, em sua maioria. é só aquele estímulo: leve, gostoso e efêmero. porém bons o suficiente para conseguirem enganar nossos cérebros, de maneira a fazer com que ele acostume-se com o fluxo de informações e aceite que aquele é o ritmo natural.

ao ser exposta a esta nova naturalidade, nosso cérebro começa a se acostumar com a ideia de que ele não precisa necessariamente processar tudo que vê. tudo passa a consistir em uma dose de sentimentos bons, que fragmentam as nossas ansiedades, nos fazem escapar um pouquinho da realidade e nos sentirmos mais calmos. 

é aí que começa a navegação inconsciente.

quando passamos a não pensar mais se queremos realmente estar no instagram. quando estar com o celular na mão vendo qualquer coisa é o estado natural, mesmo que no fundo os desejos fossem outros. é quando esse processo todo passa a existir pelo simples fato de ser confortável. é nesse momento também que passa a ser difícil ler um texto como esse, com mais de 2 ou 3 parágrafos, uma ideia sendo dissecada de forma tão brutal.

e o noSurf cresce em cima da indignação gerada por todo esse contexto. evitar o Mindless Browsing é um movimento contrário ao que conhecemos como o maior bem do século: a quantidade de informação que temos a nosso favor. sim, é fato que esta geração é privilegiada por ter nascido num contexto onde podemos saber tudo sobre qualquer coisa a qualquer momento. mas o que exatamente estamos construindo com isso?

pra falar a verdade, essa quantidade de informação tem gerado muitos reflexos negativos. caso tenha interesse, pesquise sobre “internet e ansiedade”, “social networks and anxiety” e termos similares.

saindo da caverna

toda essa narrativa se assemelha com o mito da caverna de platão, onde os prisioneiros não possuem conhecimento do que há de verdade do lado de fora da caverna e se contentam com sombras. mas agora, tendo sido expostos os fatos, o que fazer?

passar a refletir mais sobre o que realmente estamos fazendo na internet é uma saída. se realmente estamos consumindo tudo que achamos que estamos. se essas coisas nos fazem bem, no auxiliam a alcançar objetivos. há até os perderam seus objetivos em meio a tanto caos e informação.

o movimento ainda é pequeno em termos de Brasil, mas há sempre pano pra manga. todo esse contexto envolve uma análise crítica e individual, o movimento serve apenas para reunir pessoas e fazer elas trocarem experiências, mas ele se faz a partir do indivíduo por si só. o questionamento que quero levanta é: você é consciente do uso que você faz da internet?