netoguimaraes' blog


A internet das coisas e seus desafios para a UX

UX não é só pra interfaces e interfaces não são apenas web.

No universo da Tecnologia da Informação existe uma lei que começou como uma profecia de um presidente da Intel, Gordon Moore, e acabou virando uma regra levada bastante em consideração quando se fala de evolução tecnológica nas últimas décadas. Chama-se Lei de Moore e ela diz que a cada 18 meses, o mercado de hardware produziria CPUs com o dobro de velocidade e pela metade do preço. Talvez isso não seja matematicamente verdade, se formos colocar na ponta do lápis, mas o que interessa é que essa lei nos dá aporte para entendermos qual a proporção de crescimento que a tecnologia tem como base.

O interessante de verdade não é exatamente a evolução do hardware em si, mas sim as revoluções tecnológicas que surgem através do aumento da capacidade de processamento, diminuição do tamanho dos componentes, portabilidade e acessibilidade destes. Como exemplo disso temos o surgimentos de placas de prototipação como o Arduino e seus colegas de turma, temos computadores portáteis como Raspberry Pi a preço de banana.

Na última década, o maior impacto que a evolução prevista por Moore causou foi a chegada do mercado mobile com força total. Hoje em dia todos nós temos Smartphones em mãos, e sob a perspectiva da UX, podemos ver uma disruptura no cenário de interação de usuário, que passou a ser mais intimista, mas rápido, fluido e intuitivo. Mas esses benefícios custaram caro, podemos perceber ainda hoje, um cenário de discussões bastante quentes sobre tópicos de usabilidade mobile, performance e como todos esses aspectos influenciam na visão que o usuário cria sobre o produto. Ou seja, sempre que um espaço novo aparece no campo tecnológico, também aparece muito espaço para estudo sobre questões de experiência do usuário. A divisão de água que os smartphones causaram foi a de trazer pra próximo a internet, deixá-la mais fluida. Mas a evolução tecnológica não parou por aí e o próximo passo já está sendo dado.

A Internet das Coisas

Você já deve ter ouvido falar desse termo, não? Se não, aqui vai uma pequena sinopse: Quando a tecnologia dos mobiles apareceu, trouxe junto consigo a ideia de que a internet não está presa aos computadores, mas ainda assim, se pararmos para pensar nas formas que nos conectamos, ainda é muito limitada, pois temos inúmeras coisas no nosso cotidiano que ainda trabalham de forma offline e que poderiam ser colocadas “on the line”.

A Internet das Coisas ou IoT (do inglês Internet of Things), surge como uma das revoluções abarcadas pela alta capacidade de hardware que temos hoje em dia a custos relativamente baixos — apesar de não ser a custo de mercado viável para a maioria da população, só o fato de não ser algo digno de ficção científica já faz disso algo mais próximo da realidade. Esse conceito nos trás a possibilidade de conectar os dispositivos do nosso cotidiano à internet, dando assim diversas novas funcionalidades para aparelhos que já são nossos conhecidos.

Esse novo modo de ver as coisas veio para tirar a ideia de que a internet e a tecnologia está fadada a avançar para construir gadgets como smartphones, smartwatches e companhia. Parece ser muito mais abrangente e interessante, para solucionar problemas, criar formas de conectar as coisas do nosso cotidiano à internet e abrir margem para novas soluções instigantes tanto do ponto de vista do design quanto do ponto de vista tecnológico e visionário.

Mas com esse novo ecossistema sendo criado, não apenas soluções inovadoras aparecerão, como também problemas cabeludos, já que é algo que não foi testado em diversos aspectos.

Podemos comparar isso com o advento dos computadores em escritórios na década passada. Apesar de arquivos digitais serem uma realidade hoje em dia, ainda podemos ver diversas instituições que ainda usam arquivos físicos, pastas físicas e possuem setor de protocolo. Demorou um tempo pra se tornar costume criar arquivos diretamente no computador, se adaptar à organização das pastas não-físicas, entender como funcionavam backups e porque eles eram tão importantes, entender qual a diferença entre extensões .pdf e .doc e mais mil outros problemas que surgiram por motivos de: era um ecossistema novo.

Podemos dizer que todo divisor de águas trás consigo um grande caminho de terra para se atravessar. E a Internet das coisas também.

Do ponto de vista do UX Design, as portas que a Internet das Coisas nos abre são imensas. Inicialmente, podemos levar em consideração que o conceito de design, no geral, remete à resolução de problemas. No panorama que essa revolução da Internet das Coisas abre, temos diantes de nós diversas novas ferramentas úteis para chegarmos a soluções cada vez mais funcionais.

Um problema que pode ser encontrado aqui é o seguinte: qualquer coisa que surgir como novidade na área de IoT será novidade pro usuário final. O papel do UX Designer não é só pensar numa experiência interessante para o usuário final, mas pensar também que a transição entre as tecnologias antigas e as novas tem que acontecer de forma intuitiva e “suave” para o usuário. Qualquer impacto brusco pode causar frustração ou aversão. Então nos deparamos com um dilema: pensar em soluções que sejam simples, que se comuniquem com o usuário que está acostumado com outros níveis de interação mas que ainda assim se utilizem de todo o aparato que a IoT nos oferece.

Na prática

Aqui temos um vídeo de um exemplo prático de tecnologia implementada pela IoT. A ideia é simples: dar poderes à mais a um produto que é de uso comum nosso, o controle remoto. Um ponto que deve ser levado em consideração é a configuração do dispositivo, quando se pensa em UX. No caso, quanto mais out-of-the-box (pronto pra uso sem nenhuma configuração), melhor.

No caso desse controle remoto, podemos observar que apesar de ter que ser feito manualmente, o processo de configuração é simples e intuitivo, sendo feito com base em perguntas objetivas e diretas. Após a configuração, o uso dele é simples também: desbloqueio e escolha do aparelho que se quer controlar, já que é um controle universal. Do ponto de vista do usuário, a experiência pode ser traduzida em apenas uma pergunta: “Esse dispositivo deixa minha experiência de controle remotos mais simples ou é apenas um aparato que vai me atrapalhar mais do que ajudar?”

Talvez você pense que qualquer coisa que envolva o ecossistema das IoTs será infinitamente mais rápida, prática e intuitiva do que uma mesma solução puramente mecânica, mas não é bem assim. Nosso próximo exemplo trata bem disso. Começar um projeto pela interface pode ser extremamente perigoso

Este artigo fala especificamente de um produto, a fechadura Lockitron, que se vende como uma fechadura inteligente para portas residenciais. Resumindo o artigo, a primeira versão da Lockitron funcionava em conjunto com um aplicativo para smartphone, ou seja: sempre que o usuário chegava em casa, tinha que pegar o smartphone, desbloquear, procurar o aplicativo dentre todos os que estavam instalados no smartphone, esperar ele carregar e só então poder abrir a fechadura. E no fim das contas, o processo de pegar a chave no bolso e abrir a porta acabava sendo muito mais fácil do que usar a fechadura inteligente. Era um esforço muito menor para um retorno igual.

Logo, foi preciso pensar em uma reformulação para que o produto fizesse sentido em existir, já que o objetivo dele era cumprir a função de abrir a porta de forma mais simples e descomplicada do que com uma chave. Então, após estudos, foi desenvolvida uma nova versão do produto, essa agora funcionando com sincronização via bluetooth: a porta era destravada sempre que o usuário se aproximava dela.

Assim, o processo se tornou mais intuitivo que o de abrir a porta com a chave, logo, a solução passou a ser eficaz.

Ligando os pontos

A Internet das Coisas dá voz a uma nova revolução que vai expandir os horizontes do UX Design, tirando a internet do escopo desktop-mobile e trazendo-a para um novo modo de trabalho, onde tudo vai estar conectado de forma a nos propiciar experiências mais simples, cômodas e intuitivas.

Esse novo panorama de criação de soluções abre margem para muitos erros também, já que não temos noção do que é ou não interessante a se fazer, visto que esse ecossistema ainda não foi testado o suficiente para serem gerados padrões de usabilidade e interação. Mas isso não quer dizer que não seja um risco bom a se correr, testar novos modos de interação para criar novas experiências de usuário. As ferramentas estão aí pra serem usadas, só se deve tomar cuidado para entender qual a melhor maneira de fazer isso, buscando sempre resolver o problema da melhor maneira e nunca dificultar sua resolução, pois esse é o papel do design no mundo.