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Falando o que penso sobre o mozilla manifesto

Sabe o firefox? Aquele navegador da raposa de fogo? Há uma entidade por trás dele que se preocupa com a internet e sobre todas as ideologias que esta carrega. Esta entidade se chama Mozilla e ela vem acompanhando o crescimento da internet desde muito tempo. A Mozilla sem dúvidas tem muito a dizer sobre todos esses anos de web. Mas não é só ela que tem algo a dizer, eu também tenho. E você também tem. Todos temos. E todos também temos o direito de falar. Neste texto eu vou divagar um pouco sobre os tópicos que a Mozilla cita em seu manifesto, que pode ser acessado diretamente AQUI.

Para cada item do manifesto, escrevi um pouquinho sobre o que o item me fez pensar. O texto não tem objetivo de defender nenhum lado da moeda a não ser o meu. E essa liberdade não fui eu que me dei.

“1. A internet é parte integral da vida moderna — componente chave para a educação, comunicação, colaboração, negócios, entretenimento e para a sociedade como um todo.”

Não é mistério pra ninguém que a internet é parte essencial para o motor da humanidade girar. Não chego a dizer que sem ela não haveria nada, porque se pararmos pra pensar, há diversos outros meios de comunicação que manteriam o mundo de pé caso a internet falhasse em algum momento. O fato é: a internet deixa tudo mais rápido. Tudo num piscar de olhos, tudo num frame, tudo num clique. Acho tolice dizer que isso é ruim e que constrói uma geração de bitolados. A verdade é que o único malefício disso é que a nossa geração se acostumou com essa rapidez e não sabe lidar com a demora de qualquer coisa. Muitos chegam a criticar a chuva de informações inúteis e desnecessárias que chega até nós, mas, ao meu ver, essa enxurrada de inutilidade contribui bem para que seja desenvolvido algum senso crítico. Num mundo onde cada um faz o que deve, uma ferramenta poderosa como a internet jamais deveria ser utilizada apenas para divulgação de artigos acadêmicos, por exemplo, como era no início. Deixa os moleque brincar. Eu mesmo me arrependo de ter perdido centenas de horas no MSN falando asneiras com diversas pessoas que hoje em dia não sei nem que fim levaram, mas tenho plena consciência de que se não fosse aquelas horas de ócio, talvez eu não estivesse aqui falando sobre o Manifesto Mozilla. Falarei mais sobre isso nos itens 3 e 6.

“2. A internet é um recurso público global que deve permanecer aberto e acessível.”

Porque a preocupação em fazer da internet um recurso global e livre de regimentos privados? Pelo mesmo motivo que não queremos que a praia se transforme num local privado. Sabe a farofada na praia? Ela tem um valor cultural, filosófico e até filantrópico. O fato de pessoas levarem suas comidas, bebidas e diversos outros utensílios para a praia não é apenas tema de sketches humorísticas. Os “farofeiros” fazem o que fazem por simplesmente terem consciência de que é mais interessante para eles levarem de casa tudo o que iriam consumir na praia ao invés de alugar guardassol, comprar comidas sob preços abusivos e etc. Mas e se a praia fosse um locar privado, onde não fosse permitida a entrada de alimentos nem de cadeiras de praia? Seríamos todos obrigados agir de acordo com as regras do dono da praia.

Isso tiraria toda a liberdade de se estar na praia. É do mesmo jeito com a internet. Ela funciona simplesmente pelo fato de ser livre. É óbvio que há algumas restrições superiores, assim como também há na praia, de acordo com determinada legislações. Mas a internet não te impede de fazer o que você quiser, a não ser que seja algo ilegal. E é dessa liberdade que nasce coisas incríveis. E é claro que também nascem coisas terrivelmente imbecis, mas é dever de cada um utilizar o poder de escolha e fazer o melhor uso possível da internet.

“3. A internet deve enriquecer a vida das pessoas como seres.”

Deve enriquecer, mas não devem haver pessoas, órgãos ou entidades ditando o que é que enriquece ou não. O poder de escolha que temos na web nos favorece a escolher o que é benefício e o que é malefício. “Enriquecer a vida das pessoas como seres” é algo muito amplo que pode ser saciado com uma simples timeline do twitter quando com uma pesquisa sobre “Software Livre” no Scielo.

“4. A segurança e privacidade das pessoas na Internet são prioridades, e não devem ser tratadas como opções.”

Basicamente, o direito de ir e vir e a segurança deste devem ser respeitados também na internet. Além de não ser interessante existirem entidades ditando para onde se deve ir, também não é interessante que hajam entidades que nos sigam e utilizem nossos caminhos para utilizar isso contra nós. Um discurso que roda por aí é o “tenha cuidado com o que você faz na web”, mas esse discurso falha no momento em que percebemos que somos livres. O erro não é nosso em compartilhar fotos do final de semana na praia, por exemplo. O erro mora no fato das configurações padrão de privacidade dessas fotos serem uma que não nos favorece, das ferramentas disponíveis para configuração de tais privacidades não serem tão intuitivas assim para o usuário comum e também mora no fato de que a conscientização dos usuários muitas vezes é feita de forma fraca. E é feita tal forma para beneficiar uma série de ferramentas que se utilizam do rastreamento de informações para uso comercial e etc.

Ferramentas essas que na verdade, acabam sendo úteis em parte das vezes. Quando meus dados são utilizados pelo Google para prever minhas pesquisas ou para me mostrar propagandas que supostamente seriam do meu interesse, me soa cômodo e útil, porém, tenho consciência de que todos os termos que eu aceitei sem ao menos ler levaram meus dados a serem utilizados de forma invasiva para que funções cômodas como um autocompletar do Google fosse possível. É um preço que se pode escolher pagar ou não. Uma dúvida que tenho é: será que meus dados são mesmo tão válidos quanto os ativistas dizem ser? Talvez não sejam. Mas vale pensar sobre e escolher se você se incomoda ou não com o uso que fazem dos seus dados.

“05. As pessoas precisam ter a capacidade de moldar a Internet e suas experiências com ela.”

O discurso mais evidente que tenho dado em todas as oportunidades que tenho é o de “porque tem tanta gente consumindo conteúdo na internet e tão pouca gente produzindo?”. Na verdade, não entro no mérito de baixa ou alta qualidade dos conteúdos produzidos, mas sim no fato de que temos poucas visões de mundo dispostas pela web. Ferramentas como Medium nasceram com o objetivo importantíssimo de viabilizar a expressão de ideias de forma mais simples dentro da internet, mas mesmo assim, é uma ferramenta de nicho muito fechado. Um conceito que surgiu com grande consumismo de conteúdos na web contrastando com a pouca produção quantitativa foi o de “formadores de opinião”. Não entro aqui no mérito de quais opiniões acho interessantes ou não, mas sim no fator que levaram apenas um seleto grupo a “soltar o verbo” e fez uma maioria apenas ouvir.

O problema que isso traz é que há um medo de se pensar de uma forma diferente das opiniões dispostas. É um desejo inato do ser humano procurar se identificar com algo já pré produzido, mas até onde isso nos influencia a mudar nossa opinião por não encontrarmos alguém que fale algo parecido com o que temos a dizer? A internet é livre e qualquer um pode falar o que pensa, há diversos meios e motivos para se fazer isso, mas há uma regra não escrita que diz que não é todo mundo que pode escrever, produzir vídeos ou qualquer coisa do tipo. Uma regra que na verdade não existe. A conscientização quanto a isso deveria ser mais difundida, quem sabe até parte do currículo escolar.

“06. A efetividade da Internet como um recurso público depende de interoperabilidade (protocolos, formato de dados e conteúdo), inovação e participação descentralizada mundialmente.”

A internet tem que ser construída por muita gente. Por programadores, entidades e pessoas comuns, para assim garantirmos a descentralização, a funcionalidade livre e a abertura para inserção de novas tecnologias. E como gente comum pode participar da construção da internet? Falando o que pensa e compartilhando com o mundo. Programação de protocolos e a interoperabilidade entre tais protocolos e outras tecnologias são apenas a parte técnica da internet. A parte técnica nem faria sentido se não houvesse um motivo humano nessa construção.

“07. Softwares livres e abertos promovem o desenvolvimento da Internet como um bem público.” e “08. Processos transparentes e com a colaboração da comunidade resultam e confiança e coletividade.”

Software livres e abertos, iniciativas comunitárias e as possibilidades de colaboração fazem com que as “regras” da web sejam escritas por seres humanos e não por contratos, executivos e benefícios não humanísticos.

“09. O envolvimento de empresas no desenvolvimento da Internet pode trazer muitos benefícios, mas é preciso ter um equilíbrio e preocupação com as pessoas.”

É óbvio que um ecossistema grandioso como a internet geraria interesses de negócios e criaria possibilidades tamanhas para desenvolvimento econômico. Se pararmos para pensar, uma paralisação da internet geraria mais problemas no setor econômico do que em qualquer outro. E isso não é por acaso. O crescimento da web transformou-a num produto. Hoje em dia, podemos dizer que boa parte da web é controlada por algumas empresas, mas isso não é necessariamente ruim.

Como diz este tópico no Manifesto Mozilla, “pode trazer muitos benefícios, mas é preciso ter um equilíbrio e preocupação com as pessoas”. Um exemplo prático disso é a Google, que nos oferece uma série de ferramentas úteis e focadas na experiência do usuário. É uma empresa importantíssima para o desenvolvimento da web, é pioneira em diversas áreas, encabeça pesquisas grandiosas que viabilizam produtos de extrema qualidade e em sua maioria, são oferecidos de forma gratuita para o usuário final. E a empresa ganha dinheiro basicamente com publicidade.

Então vamos lá, resumir um pouco as coisas: será que a Google deveria ser crucificada por coletar dados de seus usuários para lucrar em cima disso, mesmo fornecendo tantos serviços de alta qualidade de forma gratuita, mesmo tendo tantas iniciativas open source que favorecem a comunidade de desenvolvedores na internet e mesmo mantendo o youtube de pé por ser o maior site de vídeos da web (enquanto que, na verdade, o youtube apenas dá prejuízos à empresa)? Eu vejo nisso um equilíbrio. Cabe a cada um ver também e/ou não e usufruir dos benefícios ou não.

“10. Ampliar o benefício público promovido pela Internet é um importante objetivo ao qual vale dedicar tempo, atenção e compromisso.”

Como colocar isso em prática? Falando sobre a liberdade da/na internet, seja lá com quem for, aonde for ou como for. Dissecar a internet juntamente com as ideologias por trás dela é dever de cada um dos usuários da grande rede. Entender como ela funciona e como seu funcionamento reflete sobre seu cotidiano também. O que fazer com os resultados de tais reflexões também é uma liberdade. Eu, por exemplo, escrevi esse texto. E você, o que vai fazer?